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O Retrato Rasgado

As fotos de uma vida inteira podem caber no bolso da calça.

Temos pen-drive, celular, cartão de memória, tablet, notebook, computador e mais um zilhão de ferramentas para nos auxiliar nesse arquivo infinito enquanto dure. Infelizmente esse fenômeno da tecnologia colocou fim a um hábito comum a maioria das famílias: se reunir para ver fotos. A lembrança que tenho é de retirar do alto do armário caixas e mais caixas, leva-las até a sala para a visita do dia ou para nós mesmos, e começar a retirar um a um os álbuns que contavam a história da família. A cada mergulho no passado perdia-se horas olhando as imagens e comentando o quanto fulano era magro, siclano era cabeludo e assim por diante. O tempo em casa parava e, devagarinho, ia andando para trás. Hoje raramente dedico um tempo para organizar as minhas fotos e muito menos para revê-las. Tenho uma pasta no meu desktop e vou salvando tudo lá, de tempos em tempos, sempre que preciso esvaziar a memória do celular.

A tecnologia também nos trouxe muito mais facilidade em registrar os momentos, através dos celulares e suas câmeras acopladas. Talvez essa facilidade tenha vulgarizado o ato de fotografar. Ou seja, o nosso avanço transformou não só a maneira de vermos as fotos, como também de registrarmos as fotos. Antigamente comprávamos os filmes com seus limites de poses. Se em uma viagem levássemos um de 36, sabíamos que aquele seria o número máximo de fotos que poderíamos fazer com aquele filme. Cada clique ganhava a importância de um único. Cada registro como se fosse o último. Caprichávamos, fazíamos pose, se o lugar não fosse tão bonito, guardávamos para depois. Com a aposentadoria do filme e a facilidade do celular, passamos a fotografar os pratos de comida, os copos de bebida, o espelho, e principalmente, nós mesmos – na cama, na rua, na festa, em qualquer hora, em qualquer lugar. Na fotografia de celular somos todos Narciso.

Assistindo ao novo filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar, o excelente e dolorido “Julieta”, um detalhe me chamou a atenção para essa nossa relação com a fotografia. Na trama (não entrarei em detalhes para evitar spoilers), mãe e filha possuem uma relação complicada. A certa altura, a mãe recolhe um envelope que havia guardado e nele está uma fotografia totalmente rasgada, dela com a filha. Como um quebra-cabeça, ela remonta a fotografia, peça a peça. A imagem sendo um retrato fiel da relação das duas. Colando a fotografia, ela mantinha a esperança na reconciliação. Na poltrona do cinema, me peguei pensando em como essa cena, por menor que fosse dentro do filme, para mim era imensa! A mãe rasgara a foto em fúria, como que enterrando para sempre a filha dentro de si, cortando qualquer vínculo que ainda mantivesse com ela. Um parto ao contrário! E depois, cuidadosamente, guardou os pedaços em um envelope! Ou seja, xingou a filha, pôs de castigo, para depois beijá-la e colocá-la delicadamente para dormir. Toda mãe guarda os pedaços do retrato rasgado, nenhuma mãe desiste de seu filho.

No escuro do cinema, também me peguei pensando em como essa cena acontece nos dias atuais, com cada vez menos fotos para serem rasgadas. Deletar uma foto do celular não tem o mesmo sentido de se rasgar um retrato. Depois de uma desilusão amorosa, por exemplo, rasgar o retrato da outra pessoa recarrega a energia e dá força para seguir em frente. Provavelmente você já experimentou isso alguma vez na vida. Não tem comparação com o clique de um botão de “deletar”, gesto frio e calculista, indigno dos românticos. Se ao rasgar, podemos fazer como a mãe do filme do Almodóvar e guardar os restos, ao deletar sempre teremos a segurança de um “backup”, em caso de reconciliação.

E mesmo que a gente queime os restos, delete todos os arquivos, acabe com todas as cópias para nunca mais, ainda nos restará a memória. Essa ainda é a tecnologia mais poderosa. Não apaga de acordo com a nossa vontade, deleta somente o que não tem importância.

Comentários

  1. Este texto me fez lembrar das fotos de um ensaio nu que a Laís rasgou, de uma ex qualquer. Kakaka
    Belo texto, meu poeta.

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  2. Este texto me fez lembrar das fotos de um ensaio nu que a Laís rasgou, de uma ex qualquer. Kakaka
    Belo texto, meu poeta.

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