segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Brasil sem referência


"Narciso acha feio tudo o que não é espelho", já cantava Caetano Veloso na letra que melhor representa a cidade de São Paulo e o estranhamento que ela causa em quem não é de lá. Muitas vezes, ao invés de achar feio aquilo que não conhecemos, procuramos referências para comparar e igualar com o que dominamos. Assim o estranho se torna mais compreensível. Serve pra tudo.

Quando surge um novo artista, por exemplo, os críticos logo concluem que aquele é o "novo Chico" ou a "reencarnação de Charles Chaplin". Por mais que se tenha um estilo totalmente próprio e inovador, as pessoas sempre vão querer procurar uma referência ou um rótulo para encaixar no que já é de domínio público. É um pensamento limitador, simplista e careta. Mas parece que usufruir de algo que não se domina por completo está além da capacidade das pessoas.

Com o esporte e principalmente com o futebol funciona da mesma maneira. Neymar não é Neymar, e sim o novo Pelé. Messi é o Maradona versão careta. O Barcelona é o Brasil de 82 ou a Laranja Mecânica de 74 e 78. Tudo parece que já foi visto antes. Como a reprise de uma novela antiga ou uma peça de teatro que nunca sai de cartaz.

Pensar assim é ilusão. Sinto em informar aos saudosistas de plantão que tudo que mencionei antes é atual. Faz parte da história que ainda está sendo escrita. Messi tem apenas vinte e quatro anos, Neymar dezenove. O Barcelona está no auge. A única relação com o passado é porque cada jogador ou técnico tem suas referências e influências. Mesmo assim, o foco no futuro nunca se perde. Justamente por isso o Barcelona está muito além de qualquer outro time do mundo. Olha pra frente sem perder as referências que considera importantes.

Quem parou no tempo mesmo foi o Brasil. O jogo de ontem mostrou perfeitamente isso, com o Santos apenas assistindo à aula do time espanhol. O futebol mudou faz tempo, muito antes de Neymar e Messi. Jogadores se tornaram atletas, correndo como loucos em volta da bola. O futebol arte e técnico ficaram sem espaço. O Brasil aceitou calado e se adaptou do jeito que pôde. Perdeu seu encanto. Desistiu de dar espetáculo. Não quer mais os craques. Se contenta com a vitória com cara de derrota.

Dos times atuais, apenas o Barcelona teve a ousadia de tentar criar algo novo. Conseguiu. Dá show, vence, conquista títulos e humilha grande parte dos adversários. Apesar disso, alguns estudiosos da bola insistem em dizer que o que se vê ali é só a repetição do que o Santos de Pelé já fazia. Para eles, não se trata de invenção ou transformação, é cópia mesmo. Mas como, se o futebol mudou tanto de Pelé a Messi? Não faz o menor sentido.

Como definiu perfeitamente o colega e amigo Daniel Espinosa: a história nos ensina que os reis não são eternos, apenas deixam suas marcas na história. E sempre há um herdeiro para a coroa. Neymar é Neymar. Messi é Messi. Pelé é Pelé. Além disso, temos que aceitar de uma vez: nessa história, o Brasil foi quem ficou pra trás. Como aquela seleção de 1950.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Gretchen Filme Estrada


Há alguns dias, Gretchen partiu para o auto-exílio, nos Estados Unidos. Levou consigo o décimo quinto marido e o seu antológico bumbum. A notícia passou despercebida por grande parte da mídia, o Brasil não sabe o que está perdendo. O fim da carreira do seu maior símbolo cultural merece apenas uma nota em um jornal qualquer.

A importância de Gretchen para o País é maior que a de João Gilberto, por exemplo. Eu mesmo não tinha consciência disso até assistir ao documentário “Gretchen Filme Estrada”, lançado recentemente pela jornalista gaúcha Eliane Brum e o documentarista Paschoal Samora. O filme faz uma narrativa da campanha de Gretchen à prefeitura de Itamaracá, em Pernambuco, em 2008. A ideia era revelar a transformação da artista em política. Não foi possível. Gretchen perdeu a eleição e continuou rebolando.

A Rainha do Bumbum começou a rebolar em plena Ditadura Militar. E continuou durante o movimento das Diretas-Já, viu o Collor mandar e desmandar no Brasil, assistiu à expansão da internet e lamentou duas ou três guerras. Tudo assim: rebolando. Enquanto o mundo acontecia, Gretchen e seu bumbum rebolavam incansavelmente.

Aos cinqüenta anos, em 2008, ela finalmente se cansou e por isso foi tentar a carreira na política. Queria fazer mais pelo Brasil aposentando seu lado artista. Lutou pelo direito de ser, ao menos uma vez, simplesmente Maria Odete Brito de Miranda. Não deu certo. No filme de Eliane e Paschoal, Gretchen rebolava nos circos pelos confins do Brasil, acreditando que aquelas seriam suas últimas apresentações. Era sempre uma festa. Crianças desdentadas, mendigos e trabalhadores, sem ter nem o que comer, davam o pouco que tinham para assistir Gretchen rebolando. Seu bumbum ainda hipnotiza, trinta anos e muitas plásticas depois.

Gretchen sempre rebolou ao som de Freak Le Boom Boom e Conga, conga, conga. Nunca ninguém quis saber do resto. As duas músicas sempre foram suficientes. Ela é isso: o seu bumbum mexendo ao som de duas músicas. Melhor símbolo do nosso País não há.

Porém, o Brasil nunca parou para ouvir o que Gretchen tinha a dizer. E ela sempre teve o que contar. Afinal, uma mulher que rebola por trinta anos ao som de duas músicas pelos confins do Brasil tem muito o que dizer. Principalmente a respeito do que é o Brasil. Mas quando se fala em Gretchen o máximo que se tem é deboche. Para a maioria, ela não passa de uma caricatura. O Brasil também. Por isso acredito que a importância de Gretchen e o seu bumbum é maior que a de João Gilberto e o seu violão.

Alguém disse que as lembranças de uma vida são as marcas que ela deixa no corpo. As rugas é que podem dizer o quanto alguém viveu. Gretchen, portanto, optou por esconder seu passado com as inúmeras plásticas. O Brasil faz exatamente o mesmo: apaga o que não lhe cai bem e o que não lhe serve.

Agora Gretchen partiu e quase ninguém se deu conta. Trinta anos depois, seu bumbum parou de rebolar e as duas músicas se calaram. No fim, esta é a história de quase todo brasileiro: rebolar a vida inteira ao som de duas músicas e quando se cansa quase ninguém percebe. A história se apaga com borracha. Ou Botox, o que aparecer primeiro.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O passeio de Sarney


Enquanto os rebeldes da Líbia festejam o poder, penso no Maranhão.

Muamar Kadafi transformou Trípoli em seu quintal particular e bem que deve ter influenciado a família Sarney, que fez exatamente o mesmo com o estado inteiro do Maranhão.

Sarney é sinônimo de privatização do espaço público.

Lula disse certa vez que o atual presidente do Senado jamais poderia ser tratado como um “homem comum”. O deputado estadual Magno Bacelar (PV) apareceu com o mesmo discurso, comentando a denúncia de que Sarney havia utilizado o helicóptero da Polícia Militar do Maranhão para ir até a ilha de Curupu, onde possui casa.

Assim como pegou carona com Amapá, Sarney deu um passeio rápido no helicóptero comprado por R$ 16,5 milhões pelo governo do estado. O objetivo com a aquisição era combater o crime e socorrer emergências médicas. Mas tudo bem, a carona não gerou nenhum transtorno. Apenas um paciente em estado grave que aguardou para ser atendido enquanto Sarney descarregava as malas.

O Brasil que espere. Afinal, Sarney não é um “cidadão qualquer”.

Vejamos, por exemplo, o que a família do coronel fez pelo Maranhão: o estado é um dos mais pobres do País. Possui o segundo Índice de Desenvolvimento Humano mais baixo, na frente apenas de Alagoas. É dono também da segunda pior expectativa de vida do Brasil.

De acordo com dados divulgados pelo IBGE em 2009, o Maranhão possui o maior número de crianças, entre oito e nove anos de idade, analfabetas. Quase 40% das crianças do estado nessa faixa etária não sabem ler e escrever, sendo que a média nacional é de apenas 11,5%. Para completar, o quintal dos Sarney possui o segundo maior índice de mortalidade infantil do País e ainda sofre com problemas de saneamento básico e desnutrição infantil.

Ou seja, é o paraíso na terra.

Essa imprensa é que insiste em inventar denúncia e perseguir o messias do sertão e sua filha exemplar. Grande injustiça.

Se José Sarney quiser dar um passeio no helicóptero da PM para sua ilha particular o que o Brasil tem a ver com isso? Afinal, o que é mais importante: o ferido precisando de transporte para conseguir atendimento o mais rápido possível ou o bem estar da família imperial do Maranhão?

Não responda. Lembre-se: José Sarney não é um cidadão qualquer.

domingo, 21 de agosto de 2011

Governo Insensato


Sempre torço pelos vilões. Nas novelas, nos filmes, nos livros e até na vida real, por que não? Um dos mais recentes bandidos a contar com meu apoio incondicional foi o Léo de Insensato Coração, última novela das nove da TV Globo. O filhinho de papai mau caráter, interpretado magistralmente por Gabriel Braga Nunes, me fazia vibrar no sofá. Enquanto as pessoas ficavam horrorizadas com a frieza do personagem, eu o aplaudia. Às vezes calado, claro. Com uma visita em casa, por exemplo, não deixava transparecer esse meu desvio de caráter. Certamente não me entenderiam.

No caso da novela, outro fator foi determinante para eu estar do lado errado da história. Achava aquele trio do bem: Marina, Pedro e Raul, extremamente chato. Talvez seja por isso que eu torço pelos vilões. Na maioria das vezes eles são divertidos e carismáticos, enquanto o mocinho sempre é tedioso. Na vida real, se repararem bem, não difere muito.

Tenho lido bastante a respeito da limpeza que a presidente Dilma Rousseff vem aplicando em seu governo. Quatro ministros, em menos de oito meses de mandato, foram varridos tapete abaixo. Antonio Palocci da Casa Civil, Alfredo Nascimento dos Transportes, Nelson Jobim da Defesa e o mais recente, Wagner Rossi da Agricultura. Todos, sem exceção, vitimados por essa assepsia. Eu lamentei. A queda dos ministros, em favor de uma renovação no governo, é a derrota do vilão. Chato.

Sem contar que a tal faxina é uma grande farsa. O governo luta para acabar com algo que ele mesmo criou. Ou o Estado se transformar em moeda de troca política não foi invenção do PT? A imagem de Dilma tentando conter o avanço da poeira e disfarçando o mau cheiro poderia ser motivo de piada. Uma piada trágica.

Voltando a novela, não sei que fim levou o Léo, perdi o último capítulo. Melhor assim, aposto como se deu mal. O vilão pagar pelos seus erros é uma maneira de mostrar para os brasileiros que agir sem moral tem seu preço. E você acaba pagando, nem que seja no último capítulo. Balela, só mesmo na ficção. Por isso, no governo Dilma, não me decidi totalmente quem é herói e quem é vilão. Vou aguardar o último capítulo. Esse eu não vou perder.


terça-feira, 10 de maio de 2011

Ana das Diárias


A Ana de Amsterdam do Chico Buarque virou Ana das Diárias. Trata-se da própria irmã do compositor. Ana do dique, das docas e das polêmicas. Ana das controvérsias. Ana de Hollanda, ministra da Cultura e das trapalhadas.

Chico apoiou Dilma durante a campanha à presidência, quem pagou o preço foi o Brasil. Temos que aguentar sua irmã cometendo gafes e injustiças. A essa altura, ela já é carta marcada e jogo de azar.

A última confusão envolveu as diárias pagas à ministra por finais de semana passados no Rio de Janeiro, onde ela possui imóvel próprio. Em quatro meses, Ana recebeu cerca de R$ 35,5 mil por 65 diárias, sendo que em 16 desses dias (no mínimo), a agenda não registra compromisso oficial.

"Ana fulana, Ana sacana".

O costume da ministra é marcar compromissos nas sextas e segundas-feiras no Rio e receber ajuda financeira pelos dias de trabalho e também pelos sábado e domingos de folga. Ana é original nas suas trapalhadas e muito mais nas suas justificativas. Sobre essa última acusação ela explicou que as diárias são muito mais baratas do que as passagens de avião do Rio à Brasília. Ou seja, ela simplesmente fez com que o Estado economizasse.

Na verdade, a ministra mostra ter um senso de bondade apurado. Ela poderia ter voltado à Brasília na sexta e ido ao Rio na segunda, mas optou por ficar descansando em casa já que as passagens custam caro. As diárias não. Raciocínio formidável.

A maninha de Chico vai provocando confusões até que Dilma tome uma atitude. A presidente já deu sinais de que a paciência é curta, é bom Ana se cuidar. Mas enquanto nada acontece, ela segue cantando: "sou Ana, obrigada. Até amanhã, sou Ana."