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O Fantasma de Vinte Anos

Todo dia ele faz tudo sempre igual.

Acorda às seis da manhã, desliga o despertador do celular, aproveita o aparelho nas mãos para olhar as últimas novidades das redes sociais, a previsão do tempo, o e-mail, e só depois de uns dez minutos é que se vira para o lado, dá um beijo na esposa que levanta as oito e ainda está dormindo, e se ergue da cama. Afinal, não tem escolha.

Vai até o closet, separa cueca, meia, calça e camisa e deixa cada peça, uma sobre a outra, lhe esperando. Entra no banheiro. Primeiro liga o chuveiro e só depois tira o pijama, dá o tempo certo de a água esquentar. No banho, sempre a mesma sequência. Primeiro o cabelo – o pouco que lhe restou já está grisalho, muito diferente da cabeleira farta dos seus vinte anos – sempre pensa nisso enquanto esfrega os poucos fios com as pontas dos dedos. Por último os pés. Desliga o chuveiro e sai. Seca o corpo começando pela cabeça, que já está no escritório. Será que responderam aquele e-mail? Será que fulano finalizou a planilha que eu pedi? Será que o cliente pagou aquela conta? Será que será que será? Afinal, não tem escolha.

Já seco, veste as roupas que separou. Se olha no espelho e, apesar de não ter mais vinte anos, não se acha exatamente feio. Pensa que a esta altura do campeonato até que está dando um caldo. No caminho da cozinha, passa pela sala de televisão a tempo de ligar o aparelho para assistir ao primeiro telejornal da manhã. Vai preparar seu café, pão de forma com manteiga e queijo e um café amargo, sem açúcar, para acordar de vez. Ao fundo, a voz do apresentador lendo as primeiras notícias do dia. Bebe o último gole, coloca prato e xícara no fundo da pia e volta ao banheiro, dessa vez para escovar os dentes. Dá um último beijo na esposa sonolenta desejando bom dia e sai de casa para enfrentar mais um dia. Mais um dia em que fará tudo igual, mais um dia sem surpresa, mais um dia do mesmo dia, mais do mesmo. Mais um. Afinal não tem escolha.

Se alguém perguntar, se dirá feliz. Profundamente feliz. Afinal, é a vida que todos vivem, por que raios não seria feliz?

Entra no carro e, antes de dar partida, sente que está sendo observado. Estranha sensação. Escuta uma risada e não tem a menor dúvida de que sim, está vindo de dentro do carro. Enxerga pelo retrovisor alguém sentado no banco de trás. Alguém que o cumprimenta, com a maior naturalidade:

- E aí, bonitão?

Depois do susto, resolve não olhar pra trás para perguntar:

- Quem é você? Como entrou aqui?

E pensa “tomara que ele leve tudo e me deixe em paz, pode levar carteira, celular, o carro, o que ele quiser, mas que não faça nada comigo”. Parece que o indivíduo lê seus pensamentos, porque o surpreende:

- Está com medo, doutor? Calma que isso aqui não é assalto não. Sequestro... talvez. Mas não é pela grana, não.

- Como assim? Vai me sequestrar?

- Ô doutor, não está me reconhecendo não? Tudo bem que faz tempo, mas não é tanto assim.

Como assim um conhecido havia invadido seu carro às 7h da manhã? Com qual objetivo? Ele finalmente decide olhar para trás para descobrir quem dos seus amigos seria capaz de uma brincadeira daquelas e é quando dá de cara com... ele mesmo. Estava ali, no banco de trás, exatamente como se estivesse mirando um espelho, só que uns vinte anos mais novo. A cabeleira farta, aquele jeitão largado, a camiseta estampada com uma banda de rock da qual não se recordava.

- E aí, doutor? Lembrou?

- E-e-eu não estou entendendo... Vo-vo-você...

- Sim! Eu sou você, você sou eu. Muito prazer! Posso pular pro banco aí da frente? Vamos dar uma volta, no caminho eu explico.
Antes que ele respondesse, o seu eu de vinte anos saltou para o banco da frente e em seguida ordenou:

- Tá esperando o quê? Vambora!

- Pra-pra-pra onde?

- Para a praia, para o shopping, para o parque, pra onde você quiser! Vamos que o papo será longo e eu não tenho muito tempo pra ficar aqui.
Arranca com o carro e seu eu com vinte anos dispara a falar:

- O negócio é o seguinte. Eu vim do passado porque não podia mais me aguentar, assistir a esse espetáculo da decadência sem tomar uma atitude. Vim para te salvar!

- Espetáculo da decadência?

- Exato! A sua vida! A vida que você escolheu! Mas eu não escolhi! É justo? Você aí, todo engomadinho, de camisa social bem lavada e passada com o terno último modelo da loja mais cara, sapato impecável... Achando que contribui com a sua parte para nosso belo quadro social, como diz a canção. O que aconteceu com as camisetas do Chê? O que aconteceu comigo?

- Engraçadinho. Se eu for trabalhar com a camiseta do Chê eles me demitem na mesma hora! Você surgiria assim, do passado, para pagar minhas contas? Du-vi-do! E o que aconteceu com você? Você... você... você virou eu, oras!

- Nem fala... Por que você não troca de emprego? Se você não pode usar uma camiseta do Chê lá é porque não é o lugar certo pra você!

- Você não entende...

- Não entendo o que?

- Tenho conta pra pagar, família pra sustentar, preciso desse emprego. Foi onde me dei bem, onde consegui conquistar tudo o que tenho!

- Mas você não gosta dele!

- Quem disse?

- Eu sou você, esqueceu?

- Putz...

- Não me venha com essa que não cola! Não me diga que está feliz! O que aconteceu com o moleque sonhador? Aquele que morou um ano em Cuba e que iria escrever um livro com todas as histórias que viveu na ilha de Fidel? Você nunca passou do primeiro capítulo! E aquele garoto que queria conhecer o mundo inteiro mas só viaja se for pra comprar roupa e os últimos produtos da Apple? Você o matou quando aceitou viver essa sua vidinha! Sim, vi-di-nha, no diminutivo! Que vergonha que você me dá. Vivendo todo dia exatamente igual, fazendo exatamente as mesmas coisas, exatamente na mesma ordem e pensando “não tenho escolha. Tenho que sustentar família, tenho isso, tenho aquilo...”. Balela! Você só pensa no dinheiro, virou refém dele, se rendeu à sociedade do desempenho. Há quanto tempo você não visita sua mãe? Nossa mãe! Há quanto tempo você não conversa com a sua esposa? Sempre a mesma desculpa... “não tenho tempo...”.

- Estou sonhando, só pode...

- Não está! A sua vida sim é que é um pesadelo! E me agradeça por ter aparecido aqui pra te despertar. Vai, me diga sinceramente, você não tem saudade de quem você era?

- Lógico que sim! Mas não tenho escolha! Não poderia viver eternamente dentro daquelas ilusões de jovem. Todo mundo tem que amadurecer um dia. E as coisas mudam, os sonhos mudam.

- Quer dizer que você ainda tem sonhos?

- Claro que sim!

- Qual, por exemplo?

- ...

- Aposto que você pensou em casa da praia, carro novo, uma casa maior. Não foi?

- Hu-hum

- Tá vendo. Você virou aquilo que mais condenava. Aquele tipo de homem que mais te enojava. Há quanto tempo você não faz algo que realmente te dá prazer?

- Tá bom, chega! Já entendi. Reconheço. Eu mudei. E queria estar diferente, óbvio que queria. Sou frustrado! Um artista frustrado, um escritor frustrado, um viajante frustrado! Mas o que eu posso fazer se eu não tinha talento pra essas coisas? Insistir nelas é que seria um erro. Eu viveria de quê? De luz?

- Mentira! Você sabe que tinha talento. Mas quando se isolava pra escrever ficava constrangido com os parentes te pressionando. “Quando você vai arrumar um trabalho de verdade?” “E o casamento, meu filho, quando vai sair?” Você não aguentou e seguiu a vida que os outros escolheram pra você!

- Ok, ok. Mas e aí? Não posso me torturar por algo que já passou. O passado passou e ninguém consegue mudar.

- Aí está! Falou o que eu queria ouvir. O passado a gente não muda, mas o futuro sim! Ou você pretende morrer agora?

- Engraçadinho...

- Reaja! Comece a mudança hoje, resgate seus sonhos, seja eu de novo, seja você de verdade! Acorde para a vida. Se você for viver essa vidinha, acho melhor parar agora e desistir.

- Não sei...

- Vai! Faça isso por mim, por nós. Perai, já sei. Vou te convencer. Encosta o carro.

De repente, o seu eu de vinte anos saca um telefone celular do bolso.

- A-há! Quando eu tinha vinte anos ainda não tinha celular, onde você arrumou esse?

- Eu estou no presente, esqueceu? Perai, só um pouco, vou chamar mais dois amigos pra animarem esse papo.

- Como assim?

- Alô! Estamos aqui na rua tal, número tal, venha e traga o velho também. A situação está mais difícil do que imaginei.

- Quem você chamou? Não estou entendendo mais nada. Olha, foi um prazer, agradeço muito a sua disposição em me ajudar, mas estou feliz com a minha vida, a vidinha como você diz, mas estou realmente atrasado para o serviço e tenho que... tenho... é...

Neste momento, do lado de fora do carro ele avista dois homens, duas versões dele mesmo, e lhe vem novamente a sensação de observar um espelho ou clone ou sei lá. Porém, os dois, dessa vez, são mais velhos que ele. A versão de vinte anos ordena:

- Vamos descer do carro, conversamos com eles dois nesse café da esquina.

Eles descem, cumprimentam os dois senhores, entram no café e escolhem uma mesa discreta no fundo do salão.

- Por favor, me deixe apresentar, essas são as versões mais velhas de nós dois.

Um dos senhores, o mais jovial, solta uma gargalhada e emenda:

- Versão mais velha!? Hahahaha Você já olhou o estado dele?

O outro mais velho apenas observava com olhar carregado, os ombros caídos e um ar de total desinteresse pelo que estava acontecendo ali.

- Está vendo? – questionou seu eu de vinte anos

- O quê, exatamente?

- Esse senhor alegre aí é a sua versão daqui quinze anos, se você me ouvir e seguir o que estou te falando. Ele viajou o mundo, fez tudo o que deu na telha nos últimos anos de suas vidas. Não tem um tostão guardado, mas é feliz. E se quiser ouvir suas histórias você vai precisar de pelo menos um dia inteiro nesse café.

- Ahn. Ok. E o outro?

- O outro é você amanhã. Exatamente você. Se você optar em ficar nessa mesma vidinha que está levando. Falando nisso, não podemos nos demorar na rua pois a saúde dele é frágil. E mesmo assim, você não aguentaria muito tempo. Ele é um velho ranzinza, chatíssimo. Se quiser puxar qualquer história do passado, é só trabalho, trabalho, trabalho. A maior emoção que ele teve na vida foi quando ficou preso no elevador do serviço, esses dias. Deprimente.

O seu eu velho ranzinza decide interromper:

- Não ouve o que esse moleque está dizendo. Você está no caminho certo. Já comprou apartamento, teu carro é do último ano, falta só mais um pouco para assumir como presidente da firma. E vai assumir. Não queria te contar, mas vai ser em breve. Vai ter um bom aumento e seus milhões no banco vão multiplicar. Dinheiro suficiente para até teu neto não precisar mais trabalhar. Se bem que isso vai ser meio difícil, já que nem filho você tem. Mas tudo bem, melhor assim. Fica tudo com você, não precisa se preocupar em dividir. Depois que você der esse salto na vida, vai ver! Todo mundo na rua, no condomínio, no futebol, todos te admiram e comentam o quanto você é poderoso. Você será bajulado! Não dê ouvidos a esses dois inconsequentes. Siga nesse...

E de repente para de falar interrompido por um ataque de tosse que parece interminável. É quando o seu eu velho mais jovem resolve participar também:

- Se quiser terminar doente como ele, continua assim. Mas só te digo uma coisa. O México é lindo! O Japão é incrível! Na Europa, fiquei fã da Alemanha, tudo lá funciona! Se bem que o interior da França também é magnífico. Mas sempre fico em dúvida na hora de escolher a melhor viagem, porque o mochilão por toda a América do Sul ficou na memória também! Nos divertimos demais! E o nosso livro com as histórias de Cuba foi um sucesso, por incrível que pareça! Vendeu que nem água, demos entrevista no Jô e tudo. Foi bom porque te ajudou a se reerguer, já que um pouco antes você teve que se desfazer do apartamento porque a grana apertou. Você teve uma crise existencial com a mudança de estilo de vida, torrou muito dinheiro e, como os tempos eram outros, quando viu já havia acabado com quase tudo. Mas fora esse contratempo, que vida tivemos! E tudo graças ao nosso eu de vinte anos, que lhe acordou do pesadelo.

O seu eu de vinte anos interrompe:

- Tá vendo só? Ficou mais claro? Agora vamos deixar esses dois e retomar nosso caminho.

Eles voltam para o carro e, antes de entrar, seu eu atual interrompe seu eu de vinte anos:

- Não precisa entrar. Já entendi o que veio fazer aqui e lhe agradeço. Ainda estou um pouco confuso, é verdade. Mas se tudo isso realmente não for um sonho, já sei o que fazer.

- Ah, se todos tivessem um fantasma de vinte anos que nem eu. Os epitáfios seriam bem menos tristes.

Apertam as mãos e seu eu atual acelera o carro em direção ao apartamento. Ao chegar, toca a campainha insistentemente até que a esposa abre a porta, assustada:

- O que houve? Você não está no trabalho? Aconteceu alguma coisa?

- Não aconteceu, mas vai acontecer!

- Ahn?

- Faça suas malas... Rápido!

- Como assim? Você está bem? Não estou entendendo!

- Sim, perfeitamente bem. Faça suas malas, logo, vamos!

- Iremos pra onde?

- Pra Cuba!!!

- hahahaha... enlouqueceu de vez!

- É sério. Preciso refazer o caminho que fiz quando tinha 18 anos e morei lá. Preciso refrescar a memória pra escrever o livro que parei no primeiro capítulo...

- Mas e a firma? Você pegou férias?

- Não. Depois envio um e-mail avisando que não irei mais.

Ele ia falando, trocando a roupa, fazendo a mala, tudo ao mesmo tempo, enquanto a esposa observava sem entender bulhufas. E ele continua...

- Confie em mim. O livro será sucesso!

- Como você sabe?

- Eu vim do futuro e contei, vou dar até entrevista no Jô. Eu sou divertidíssimo no futuro, você vai ver! E eu não vou ficar totalmente careca!!!

- Amor, o que você tomou!? Tá me dando medo!

- Confia em mim! Eu acordei pra vida! Um dia você vai entender e agora terei tempo de sobra para contar, vamos conversar tanto de hoje em diante!!!

Ele beija a esposa como há muito não fazia. Os dois terminam as malas e saem apressados até o aeroporto. No caminho, ele avista na calçada seus outros três eus, conversando entre si. E identifica cada um à sua maneira, um gargalhando, o outro fazendo um gesto sutil de agradecimento e o último balançando a cabeça de um lado para o outro, com ar de reprovação.

- Ah, vá a merda, velho ranzinza!

- Ahn?

- Nada não... Na viagem, quem sabe, eu explico.

- E onde você está indo? O aeroporto fica para o outro lado!

- Vamos passar na casa da minha mãe. Quero dar um beijo nela antes de irmos.

E continuou seu caminho.

Pela primeira vez nos últimos vinte anos, sem fazer muita ideia do que seus próximos dias lhe reservariam. Só com uma certeza: ainda teria filhos. Muitos.

Afinal, agora tinha escolha!

Comentários

  1. 👏👏👏👏 boa reflexão sobre nosso estilo de vida e nossos anseios esquecidos pelo tempo.

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  2. Belo texto... ��������

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  3. Excelente texto, bela reflexao do que estamos fazendo da nossa vida...

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