Pular para o conteúdo principal

Palhaçada


O Brasil não é exatamente um país bobo, mas seus eleitores são. Caso contrário Francisco Oliveira Silva nem ao menos seria candidato à Deputado Federal nessas eleições. Além disso, ele é indicado como o favorito dos eleitores. À propósito, Francisco Oliveira Silva é o nome verdadeiro do humorista Tiririca. Começo a achar que o Brasil é sim um país bobo.

Para alguns, votar no Tiririca seria apenas uma piada. Ou uma forma de protesto. Protesto burro, diga-se de passagem. Um tiro nos próprios pés.

Pode ser que o humorista, caso eleito, faça um mandato melhor que muitos outros e surpreenda o País. Não dá para saber. Afinal, nem ele faz ideia de quais atividades terá que desempenhar. Na pior das hipóteses, ele apenas alegraria um pouco mais o Congresso Nacional.

O tiro nos próprios pés a que me referi é pelo seguinte. A candidatura de Tiririca não é algo tão ingênuo quanto parece. Foi planejada e minuciosamente calculada, desde 2006. A intenção do PR ao lançá-lo como candidato não é somente para o ter como deputado. O plano do partido vai além, muito além disso. O objetivo é eleger seu candidato com muitos votos para que ele leve consigo aliados que, sozinhos, não se elegeriam. Isso porque o sistema eleitoral brasileiro é falho, faliu.

Isso por causa do coeficiente eleitoral, o resultado da divisão da soma dos votos válidos dados a todos os candidatos pelo número de vagas de cada estado. Ele serve para calcular a quantas cadeiras os partidos terão direito e definir o número mínimo de votos para eleger um nome. Quando os votos de um candidato ultrapassam o coeficiente, os excedentes vão para seus companheiros de chapa. Por exemplo, se o coeficiente for de 200 000 votos e Tiririca conseguir 900 000, ele garante outras três cadeiras para sua coligação.

Definitivamente, o Brasil é um país bobo.

Qualquer candidato do PR ou de partidos coligados pode se eleger à custa de Tiririca. Isso inclui três envolvidos no escândalo do mensalão: Valdemar Costa Neto e os petistas José Genoíno e João Paulo Cunha.

A política brasileira, já faz tempo, virou uma palhaçada. Já era hora de o povo ser representado por um... palhaço. Boa sorte, Brasil. Vamos dançar ao som de Florentina, Florentina. E finalmente descobrir o que faz um Deputado Federal. Obrigado, Tiririca.

Comentários

mais vistos

Saí do Brasil. E morri.

Estou morando no Canadá há quase um mês. Minha esposa foi aprovada em uma seleção para fazer seu doutorado na cidade de Calgary, a terceira maior do país, e resolvemos vir assim, de mala e cuia. Calgary é um lugar curioso, é chamada pelos íntimos de cowtown, cidade das vacas em uma tradução literal, termo usado para um lugar com fazendas em seus arredores, com um clima mais interiorano, talvez. Só para se ter ideia, o maior rodeio do mundo acontece aqui, então realmente é um lugar de Cowboys e Cowgirls. Mas pretendo contar mais da cidade e da vida aqui depois. Quero focar agora na experiência de se fazer as malas e sair do seu país, seja ele qual for.

Apesar de ser pouco tempo de experiência, já pude comprovar algumas impressões que tinha sobre a mudança para o exterior. O que acontece quando você faz as malas e embarca no avião com destino a um lugar completamente diferente do seu? Você morre. Isso mesmo, você morre. Eu morri quando vim.

Começa pelo fato de normalmente, nesse tipo d…

O Retrato Rasgado

As fotos de uma vida inteira podem caber no bolso da calça.

Temos pen-drive, celular, cartão de memória, tablet, notebook, computador e mais um zilhão de ferramentas para nos auxiliar nesse arquivo infinito enquanto dure. Infelizmente esse fenômeno da tecnologia colocou fim a um hábito comum a maioria das famílias: se reunir para ver fotos. A lembrança que tenho é de retirar do alto do armário caixas e mais caixas, leva-las até a sala para a visita do dia ou para nós mesmos, e começar a retirar um a um os álbuns que contavam a história da família. A cada mergulho no passado perdia-se horas olhando as imagens e comentando o quanto fulano era magro, siclano era cabeludo e assim por diante. O tempo em casa parava e, devagarinho, ia andando para trás. Hoje raramente dedico um tempo para organizar as minhas fotos e muito menos para revê-las. Tenho uma pasta no meu desktop e vou salvando tudo lá, de tempos em tempos, sempre que preciso esvaziar a memória do celular.

A tecnologia também nos …

O Fantasma de Vinte Anos

Todo dia ele faz tudo sempre igual.

Acorda às seis da manhã, desliga o despertador do celular, aproveita o aparelho nas mãos para olhar as últimas novidades das redes sociais, a previsão do tempo, o e-mail, e só depois de uns dez minutos é que se vira para o lado, dá um beijo na esposa que levanta as oito e ainda está dormindo, e se ergue da cama. Afinal, não tem escolha.

Vai até o closet, separa cueca, meia, calça e camisa e deixa cada peça, uma sobre a outra, lhe esperando. Entra no banheiro. Primeiro liga o chuveiro e só depois tira o pijama, dá o tempo certo de a água esquentar. No banho, sempre a mesma sequência. Primeiro o cabelo – o pouco que lhe restou já está grisalho, muito diferente da cabeleira farta dos seus vinte anos – sempre pensa nisso enquanto esfrega os poucos fios com as pontas dos dedos. Por último os pés. Desliga o chuveiro e sai. Seca o corpo começando pela cabeça, que já está no escritório. Será que responderam aquele e-mail? Será que fulano finalizou a planil…