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Amigos do Peito e Nada Mais


A imprensa brasileira não entende o valor de uma amizade.

Com frieza, condena agora o senador Demóstenes Torres pela proximidade com o empresário Carlos Augusto Ramos. O Carlinhos Cachoeira, para os íntimos. O amigo do peito de Demóstenes foi pivô do primeiro escândalo do governo Lula. Em 2004, foi divulgada uma gravação que mostrava Waldomiro Diniz, então assessor do ministro da Casa Civil, José Dirceu, negociando propina com Cachoeira. No governo popular, negócio e amizade se confundem. Esses jornalistas é que são invejosos.

No blog de Demóstenes Torres está publicado: a organização Transparência Brasil pesquisou e concluiu que o senador do DEM é um dos dez congressistas que mais apresentam projetos importantes para a população. A ONU foi além, incluiu Demóstenes entre as mil personalidades do mundo inteiro para pensar o século XXI. No último mês de dezembro, a revista Época divulgou uma lista em que ele é apontado como uma das 100 personalidades mais influentes do País. Só mesmo a imprensa denuncista para duvidar de sua reputação ilibada.

Uma operação da Polícia Federal levou para a cadeia trinta e cinco envolvidos em um esquema de jogo do bicho e exploração de máquinas caça-níqueis em quatro estados e no Distrito Federal. O amiguinho de Demóstenes, Carlinhos Cachoeira, está entre eles. Também acabaram presos dois delegados da PF, seis da Polícia Civil, além de cinco oficiais da PM de Goiás, soldados, agentes e servidores públicos. Amizade, para eles, é coisa séria. Se cair, caem todos.

Demóstenes tem uma relação bastante íntima com Cachoeira. Em julho do ano passado, o senador casou-se com a advogada Flávia Coelho e recebeu como presente do bicheiro, uma geladeira e um fogão importados. Os dois eletrodomésticos são de uma marca americana de luxo que usa como chamariz em suas propagandas o fato de estar presente nas casas de astros de Hollywood e na cozinha da Casabranca. Ou seja, uma lembrancinha.

Gravações obtidas pela Polícia Federal durante a operação Monte Carlo, revelam também que o senador pediu R$ 3 mil emprestados e vazou informações de reuniões oficiais para Cachoeira. Tudo em nome da amizade. O bicheiro providenciou ainda um Tablet novo e um avião para o senador. Nas ligações, os dois tratam-se sempre como “professor” e “mestre”.

Apesar da proximidade com o contraventor, Demóstenes garantiu que não sabia do envolvimento do amigo com a máfia dos caça-níqueis. Em nenhuma das trezentas ligações, o bicheiro sequer mencionou o negócio. Engraçado.

Em sua defesa, Demóstenes postou no Twitter: “para tripudiar sobre mim e o mandato que o povo me confiou, desrespeitam os mais elementares princípios constitucionais”. Disse também que não fez nada que envergonhe o Senado Federal ou o Brasil.

Pode ficar tranqüilo, senador. Nesse caso, a única coisa que envergonha o País é a imprensa e a sua falta de amizade.

Comentários

  1. O texto já começa perfeito e termina muito bom como sempre! e eu cada vez mais fã!!!

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