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Discurso de Dilma

Admito: criei a pior expectativa possível para o pronunciamento da presidenta Dilma Rousseff. Esperava ver uma reprise de terça-feira, quando passou a mão na cabeça dos manifestantes, se mostrou contrária aos atos de vandalismo e só. Admito que errei. A fala foi insossa, fria e distante - em se tratando de Dilma não é possível exigir muito mais que isso – mas esteve longe de ser um repeteco.

Dilma tagarelou durante dez minutos. Fez questão de relembrar seu envolvimento histórico na luta pela democracia, deixou claro que está com os ouvidos atentos às mensagens dos manifestantes pacíficos e repudiou os vândalos. Por fim, anunciou algumas medidas práticas. O velho discurso da reforma política, que vai e volta e nunca vira. A garantia de que 100% dos dividendos do pré-sal serão destinados para a educação – proposta não é exatamente uma novidade. Por fim, um possível tiro no pé: a promessa de importação de médicos para o SUS. Todo mundo sabe que a ideia de trazer médicos do exterior causa polêmica, principalmente entre a classe médica, por razões óbvias. Talvez não fosse o momento de arriscar colocar em pauta uma questão que ainda tem forte oposição.

A presidenta também prometeu se reunir com as lideranças das manifestações. Acredito que todos nós ficamos curiosos em saber como ela fará para reconhecer essas lideranças. Afinal, uma das principais características do movimento é a falta de líderes. Também acho provável que muita gente tenha sentido falta de uma posição mais enérgica em relação ao combate à corrupção. Com certeza essa é uma das principais causas das manifestações dos últimos dias e passou em branco no pronunciamento.

A fala era necessária. Dilma, portanto, cumpriu com a obrigação. Cozinhou seu arroz com feijão sem tempero em rede nacional. Discursou de forma distante do que a maioria pedia e esperava. Porém, mais uma vez, essa é uma suspeita que só o tempo poderá confirmar.

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