Pular para o conteúdo principal

"Saímos do Facebook"

Eu não sei. Você não sabe. O governo não faz ideia. Os manifestantes tampouco. Porém, nesse caso, o conhecimento em relação ao futuro é o que menos importa. A onda de indignação que tomou conta das ruas das principais capitais do País foi uma surpresa muito bem-vinda. Por enquanto, absolutamente ninguém é capaz de afirmar com propriedade onde isso tudo vai dar. Até mesmo aqueles que pintam a cara, escrevem cartazes e vão às ruas acabam quase como expectadores.

Acompanhando os protestos de ontem e de hoje é possível notar que se trata de um movimento fruto de uma boa e inédita mistura. Pessoas de partidos e ideologias diferentes, com objetivos diferentes, que ainda não aparentam rumar a um ponto comum. Alguns se apegam apenas à questão do aumento da tarifa do transporte público. Outros se indignam com os gastos para receber a Copa do Mundo. E há aqueles que estão cheios dessa coisa toda que está aí. Querem o fim da corrupção. Não querem mais Sarney, Renan Calheiros ou Tiririca.

Há também aquela parcela que grita e não sabe por qual razão. Segue o fluxo simplesmente.

Por ser justamente um movimento sem liderança política e sem bandeira definida, se trata de algo ainda não visto no Brasil. As passeatas tontearam as redações dos jornais. Golpearam o governo, que ainda não sabe como agir. A prova disso está na reação da presidenta Dilma Rousseff. Se pronunciou e apoiou as manifestações em um tom no mínimo curioso. Ficamos quase esperando ela dizer no fim: “mas esse PT não faz nada mesmo hein!?”. Depois disso foi pedir socorro ao Lula. Mais uma demonstração de que a imagem de gerentona mão de ferro, vendida durante o início do governo, era balela!

O ponto de partida para as manifestações foi, repetindo outros momentos da história, pela mobilização dos jovens. A forma como se deu esse agrupamento é que foi inovadora: pelas redes sociais. Está certo que continuamos sendo a geração do “eu, eu, eu”. Aquela que transmite o dia-a-dia pelas páginas do Instagram, do Twitter e do Facebook. Porém, deu pra perceber que basta querer para dar outra utilidade a essas páginas.

Esse dezessete de junho ficará para sempre na história. Foi um dia lindo para os que ainda acreditam na democracia e no poder de mobilização da juventude. Me arrepiei ao ver os primeiros sinais dos protestos. Chorei ao assistir a invasão pacífica à cobertura do Congresso Nacional. Para quem nasceu depois do fim da Ditadura Militar e sempre foi tachado de pertencente a uma geração acomodada e alienada, foi uma boa resposta e prova de que ainda há esperança.

Os jovens brasileiros acordaram e perceberam que a ideia vendida de que o País vai muito bem, obrigado, é falsa. Diminuição da desigualdade social? Aumento do poder aquisitivo? Na prática não é bem assim. Enquanto falta recurso pra educação e saúde de qualidade, sobra para a organização da Copa do Mundo. Sem falar na corrupção.

Ainda não se sabe onde essa correnteza vai desaguar. Não é possível saber se essa ausência de liderança e de reivindicações mais claras permitirão chegar a algum lugar. O fundamental agora é começar a politizar o debate. Tentar anarquizar tudo será perda de tempo.

Nosso papel é seguir em frente. E não deixar que o gigante adormeça outra vez.

Comentários

mais vistos

Saí do Brasil. E morri.

Estou morando no Canadá há quase um mês. Minha esposa foi aprovada em uma seleção para fazer seu doutorado na cidade de Calgary, a terceira maior do país, e resolvemos vir assim, de mala e cuia. Calgary é um lugar curioso, é chamada pelos íntimos de cowtown, cidade das vacas em uma tradução literal, termo usado para um lugar com fazendas em seus arredores, com um clima mais interiorano, talvez. Só para se ter ideia, o maior rodeio do mundo acontece aqui, então realmente é um lugar de Cowboys e Cowgirls. Mas pretendo contar mais da cidade e da vida aqui depois. Quero focar agora na experiência de se fazer as malas e sair do seu país, seja ele qual for.

Apesar de ser pouco tempo de experiência, já pude comprovar algumas impressões que tinha sobre a mudança para o exterior. O que acontece quando você faz as malas e embarca no avião com destino a um lugar completamente diferente do seu? Você morre. Isso mesmo, você morre. Eu morri quando vim.

Começa pelo fato de normalmente, nesse tipo d…

O Retrato Rasgado

As fotos de uma vida inteira podem caber no bolso da calça.

Temos pen-drive, celular, cartão de memória, tablet, notebook, computador e mais um zilhão de ferramentas para nos auxiliar nesse arquivo infinito enquanto dure. Infelizmente esse fenômeno da tecnologia colocou fim a um hábito comum a maioria das famílias: se reunir para ver fotos. A lembrança que tenho é de retirar do alto do armário caixas e mais caixas, leva-las até a sala para a visita do dia ou para nós mesmos, e começar a retirar um a um os álbuns que contavam a história da família. A cada mergulho no passado perdia-se horas olhando as imagens e comentando o quanto fulano era magro, siclano era cabeludo e assim por diante. O tempo em casa parava e, devagarinho, ia andando para trás. Hoje raramente dedico um tempo para organizar as minhas fotos e muito menos para revê-las. Tenho uma pasta no meu desktop e vou salvando tudo lá, de tempos em tempos, sempre que preciso esvaziar a memória do celular.

A tecnologia também nos …

O Fantasma de Vinte Anos

Todo dia ele faz tudo sempre igual.

Acorda às seis da manhã, desliga o despertador do celular, aproveita o aparelho nas mãos para olhar as últimas novidades das redes sociais, a previsão do tempo, o e-mail, e só depois de uns dez minutos é que se vira para o lado, dá um beijo na esposa que levanta as oito e ainda está dormindo, e se ergue da cama. Afinal, não tem escolha.

Vai até o closet, separa cueca, meia, calça e camisa e deixa cada peça, uma sobre a outra, lhe esperando. Entra no banheiro. Primeiro liga o chuveiro e só depois tira o pijama, dá o tempo certo de a água esquentar. No banho, sempre a mesma sequência. Primeiro o cabelo – o pouco que lhe restou já está grisalho, muito diferente da cabeleira farta dos seus vinte anos – sempre pensa nisso enquanto esfrega os poucos fios com as pontas dos dedos. Por último os pés. Desliga o chuveiro e sai. Seca o corpo começando pela cabeça, que já está no escritório. Será que responderam aquele e-mail? Será que fulano finalizou a planil…