Pular para o conteúdo principal

Seu filho, Seu fã

Sempre me referi ao meu pai como “o melhor do mundo”. Aliás, toda criança sempre homenageou seu pai dizendo que entre todos os pais do universo ele era o melhor. Informação cujo único embasamento científico era o próprio sentimento. Mas quem se importa? A nossa certeza é a que vale.

Neste dia dos pais repito o que disse em todos os outros, acrescentando as razões. Publico aqui a minha própria pesquisa científica.

Meu pai é o melhor do mundo porque antes de ser homem ele é pai. Antes de ser um executivo com a agenda lotada ele é pai. Antes de ser filho ele é pai.

A missão dele na Terra é esta: plantar amor e colher miniaturas de si mesmo.

Meu pai é o melhor do mundo porque quando eu quis ser artista ele aprovou. Quando quis ser jornalista ele vibrou. Quando eu não quis ser nada ele apoiou. Minha felicidade é o orgulho dele. Meu sorriso é a tranquilidade de ter dado certo.

Meu pai é o melhor do mundo porque me enxergo nele. Quando atendo o telefone e do outro lado da linha alguém pergunta: alô, Givaldo?

Ou quando ele atende e a pessoa já engata: seguinte, Felipe...

Me vejo nele quando entro na loja de discos e saio de lá deixando todas minhas economias.

Tenho em mim o mesmo gosto musical
Tenho em mim o mesmo jeito de andar
Tenho em mim a mesma mania de ser irônico nas horas mais impróprias
Tenho em mim o mesmo desapego ao dinheiro e o mesmo apego pelo amor
Tenho em mim o mesmo sangue quente que faz virar a mesa
Tenho em mim a mesma vontade de cantar

Meu pai é o melhor do mundo porque ele insiste em pegar o jornal antes de mim, mas depois de ler, me entrega mostrando alguma reportagem que vale a pena. A ansiedade na verdade é excesso de cuidado. É o meu editor particular.

Meu pai é o melhor do mundo porque na tempestade ele é o guarda-chuva. No mar agitado é o colete salva-vidas. Na turbulência é a mão que tranquiliza.

Meu pai é o melhor do mundo porque é o melhor amigo que alguém poderia ter.

Comentários

mais vistos

Saí do Brasil. E morri.

Estou morando no Canadá há quase um mês. Minha esposa foi aprovada em uma seleção para fazer seu doutorado na cidade de Calgary, a terceira maior do país, e resolvemos vir assim, de mala e cuia. Calgary é um lugar curioso, é chamada pelos íntimos de cowtown, cidade das vacas em uma tradução literal, termo usado para um lugar com fazendas em seus arredores, com um clima mais interiorano, talvez. Só para se ter ideia, o maior rodeio do mundo acontece aqui, então realmente é um lugar de Cowboys e Cowgirls. Mas pretendo contar mais da cidade e da vida aqui depois. Quero focar agora na experiência de se fazer as malas e sair do seu país, seja ele qual for. Apesar de ser pouco tempo de experiência, já pude comprovar algumas impressões que tinha sobre a mudança para o exterior. O que acontece quando você faz as malas e embarca no avião com destino a um lugar completamente diferente do seu? Você morre. Isso mesmo, você morre. Eu morri quando vim. Começa pelo fato de normalmente, nesse tip...

O Retrato Rasgado

As fotos de uma vida inteira podem caber no bolso da calça. Temos pen-drive, celular, cartão de memória, tablet, notebook, computador e mais um zilhão de ferramentas para nos auxiliar nesse arquivo infinito enquanto dure. Infelizmente esse fenômeno da tecnologia colocou fim a um hábito comum a maioria das famílias: se reunir para ver fotos. A lembrança que tenho é de retirar do alto do armário caixas e mais caixas, leva-las até a sala para a visita do dia ou para nós mesmos, e começar a retirar um a um os álbuns que contavam a história da família. A cada mergulho no passado perdia-se horas olhando as imagens e comentando o quanto fulano era magro, siclano era cabeludo e assim por diante. O tempo em casa parava e, devagarinho, ia andando para trás. Hoje raramente dedico um tempo para organizar as minhas fotos e muito menos para revê-las. Tenho uma pasta no meu desktop e vou salvando tudo lá, de tempos em tempos, sempre que preciso esvaziar a memória do celular. A tecnologia também n...

Poema - Quero Voltar

Quero voltar ao útero de minha mãe Voltar àquela espera do nascer Porém sem nunca chegar a nascer Àquele viver sem de fato estar vivendo Quero voltar ao útero de minha mãe E lá permanecer todo encolhido em um colo do avesso E infinito Ouvir minha mãe cantarolar Sentir o carinho em sua barriga E permanecer alheio a toda hostilidade Protegido pela carne Quero voltar ao útero de minha mãe Afinal qualquer mundo é pouco Quando se deixa o paraíso Penso agora que O berro ao nascer não é em vão É de desespero por saber Que não podemos desnascer Mas será que é isso mesmo? Será que a morte no fim não nos leva de volta Para o lugar de onde viemos? Pensa como seria bonito se morrer fosse isso: Voltar ao útero de sua mãe Assim a vida faria muito mais sentido E eu não mais temeria a morte.