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De que lado está o crime?

Campinas, julho de 2013. Durante um show de Funk, ouvem-se três disparos de arma de fogo. Um deles acerta em cheio o jovem Daniel Pedreira Senna Pellegrine, paulistano de vinte e um anos, que teve o peito atingido e a voz calada à força. O crime assemelha-se a vários outros sobre os quais ouvimos falar o tempo inteiro. Esse, porém, levou pouco tempo para ganhar as manchetes dos principais jornais do País. Apesar de Daniel ter tido o mesmo destino cruel de outros tantos jovens brasileiros, a notícia nos arrancou do sofá e chocou muito mais que as outras. Daniel era o nome que constava na certidão de nascimento do jovem morto, mas era usado apenas por familiares e amigos mais íntimos. Para a imensa maioria, Daniel era conhecido de outra forma: como MC Daleste.

MC Daleste era um dos representantes do chamado Funk Ostentação, uma releitura paulista do funk carioca. Nas letras do gênero, valoriza-se o dinheiro, as roupas de grife, os carros importados, as bebidas caras e as mulheres. Nos clipes, os funkeiros exibem correntes de ouro e são cercados por mulheres com peitos e bunda demais e roupa de menos. MC Daleste carregava no nome artístico sua origem, a zona leste de São Paulo, a maior e mais pobre região da capital paulista, onde o assassinato ainda é a principal causa de morte dos jovens, principalmente os pretos e pobres.

Daniel, ou MC Daleste, se foi, mas deixou uma legião de fãs, seguidores e vários simpatizantes. Há pouco tempo, alguns deles entraram no Shopping Internacional de Guarulhos para dar um “rolezinho”, ou seja, na linguagem deles, para“paquerar”, “zoar”, “dar uns beijos”, “pegar geral”. Ousaram invadir um dos centros de consumo da elite branca procurando diversão. “Eita porra, que cheiro de maconha”, um dos famosos refrões de MC Daleste foi entoado pelos jovens, em meio a lojas de grife e a cara de espanto de quem ali passava.

Nesse dia, vinte e três dos jovens foram levados até a delegacia, mesmo que nada justificasse a detenção. Não portavam drogas, não roubaram nem destruíram. Talvez o único crime tenha sido entrar sem pedir licença onde não haviam sido chamados. Afinal, para a elite branca, lugar de jovem negro e pobre ainda é no gueto. Condenando-os sem razão, o Brasil exibe outra face do seu racismo. E o racismo sim é crime.

Enquanto a ostentação dos jovens da periferia paulistana era vista apenas nos clipes dos MCs a situação era mais confortável e menos ameaçadora. A partir de momento em que eles romperam a barreira e passaram a querer ter acesso ao mesmo tipo de consumo que os outros jovens, os de classe média, passou a soar como algo transgressor e errado. Não bato palma e vibro com o já popularizado rolezinho. Não acredito que ir ao shopping gritar letras de Funk Ostentação seja a experiência mais enriquecedora para os jovens, sejam eles pobres ou ricos. Por que não fazem rolezinho na biblioteca? Ou na escola? A minha crítica é por identificar a existência de um preconceito descarado. Por exemplo, todo ano alunos da FEA-USP realizam festa dos calouros no shopping Eldorado, sem autorização. A Polícia Militar nunca foi acionada. Nunca! Todo ano, os jovens da USP lotam o shopping, gritam, bagunçam e nunca sofrem agressão do batalhão de choque. Assim como nunca teve liminar proibindo o acesso deles ao shopping. Nunca teve mídia horrorizada.

Desde dezembro o assunto impera nas redes sociais e na grande mídia. Hoje mesmo, o shopping JK Iguatemi, também na capital paulista, fechou as portas assim que cerca de cem manifestantes de um protesto organizado pelo grupo de estudantes UNEafro chegaram em frente do centro comercial.

Impedir o acesso dos jovens da periferia aos grandes shoppings, para mim, tem objetivo parecido com o de quem disparou a bala que atingiu o peito de MC Daleste. Com a diferença de que essas outras vozes não serão caladas tão facilmente.

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