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A Amazônia Vive


Na noite de ontem, em um discurso emocionado durante a abertura do Rock in Rio, Gisele Bündchen lançou o projeto mundial Believe Earth/Amazônia Live, que visa dar destaque sobre questões ambientais, como a proteção da floresta amazônica. Não é de hoje que Gisele batalha em defesa da Amazônia, mas a questão ganhou mais evidência devido à posição do presidente Michel Temer de sustentar projetos de redução de áreas protegidas e a crescente argumentação de Gisele contra ele. Recentemente fiz uma viagem à Amazônia e posso dizer que me identifico com a causa da modelo. O choro dela é também o meu. Apesar de breve, a viagem se provou transformadora e imensa em seus significados. E aqui faço um relato do que vi e vivi. Relato que é também um convite para que mais pessoas tentem conhecer e ver a floresta com seus próprios olhos.

A VIAGEM

Aos poucos, o barco vai enchendo. De pessoas e coisas e bichos. Me sinto um completo estranho ali, ao lado dos ribeirinhos, das galinhas, dos bujões de gás e outros tantos pacotes cujos conteúdos não consigo identificar. Estou no Distrito de Laberinto, a aproximadamente 55 km de Puerto Maldonado, capital do departamento de Madre de Diós, Peru, região próxima ao Acre. O rio leva o mesmo nome do departamento, que é o equivalente ao estado no Brasil. Estou prestes a iniciar uma grande aventura por sete dias na Amazônia Peruana. Para mim, uma jornada cheia de significados.

O caminho que percorri para chegar ali é bastante irônico. Principalmente pelo fato de eu só vir a encarar essa viagem depois de sair do Brasil. Hoje moro no Canadá, onde para grande parte das pessoas a Amazônia não passa de uma peça de ficção. De onde eu venho, não é muito diferente. Apesar de 60% de toda a floresta estar em território brasileiro, a imensa maioria das pessoas de lá também a tem como algo abstrato. No Brasil, sabemos sua localização, suas características e reconhecemos sua importância. Muitos a defendem com unhas e dentes, alegando ser o pulmão do mundo e outras coisas mais. Mas a imensa maioria nunca conseguiu combinar condição e coragem a fim de olhar um pouco mais de perto a realidade da floresta. Penso que a distância da Amazônia para os canadenses e brasileiros não é assim tão diferente.

Depois de duas horas de espera, o barco parte, lotado. Ao meu lado, uma senhora improvisa um tanque cheio de gasolina como assento. Vamos adentrando a mata, cada vez mais a fundo, cada vez mais o desconhecido se desenhando a minha frente. Vejo um mundo de água por todos os lados, a floresta nos dando os braços em cada margem do rio, como que formando um abraço de boas-vindas. No caminho, vamos avistando animais, árvores e plantas das mais variadas espécies e outras coisas que nos comovem, mas para o mal. Estamos em uma área onde há muita mineração de ouro, grande parte das operações, ilegais. A atividade mineradora é a principal responsável pelo desmatamento na região. A parte que sangra na floresta também sangra dentro de mim. É impossível agora não pensar em Michel Temer e no Brasil. Se a recente decisão do presidente de sacrificar uma área da Amazônia onde caberia a Dinamarca inteira em prol da mineração causa revolta e faz nascer campanha nas redes sociais, para quem já esteve na floresta e a viu com os próprios olhos, a dor é maior.


A viagem de barco dura aproximadamente cinco horas. São muitas paradas e em cada uma delas o ritual se repete. Alguns passageiros saltam para fora levando seus pertences com a ajuda de um dos donos do barco, que também estende uma tábua de madeira entre o barco e a terra, para auxiliar no desembarque. Fico pensando a que rumo aquelas pessoas estão indo, já que do assento onde estou não consigo enxergar nada do outro lado, nem casa, nem algo que se assemelhe. Elas vivem ali e, para mim, é uma realidade difícil de digerir. Percebo também que o significado da Amazônia para mim, um completo estrangeiro, e para as pessoas que ali habitam, é separado por um mundo do tamanho da própria floresta. O rio, para eles, é estrada. A floresta, moradia e fonte de sua sobrevivência. As questões ambientais discutidas por nós não os alcançam. E é com naturalidade que o rio vira lixeira. Assisto incrédulo aos arremessos de plásticos e outras sobras dentro do rio. Me incomodo mas fico em silêncio. Sei que a floresta para mim não é a mesma para as pessoas que me acompanham naquele barco.

Depois de cinco horas de viagem, sete no total com as duas de espera, finalmente chegamos à estação biológica Los Amigos, eu e minha esposa, responsável por eu estar ali. Por dois meses a estação se transformou em sua casa, onde ela trabalha pesquisando sobre o comportamento dos primatas que ali habitam. Saltamos do barco com o sol já baixo e a noite ganhando espaço. Adentramos a mata enquanto ao fundo o som do barco desaparece, já a caminho de outro destino. Para alcançar a estação, ainda precisamos subir quase trezentos degraus. Depois de toda a saga para chegar ali e com um mochilão pesando nas costas, essa não é das tarefas mais fáceis. As árvores se unem acima da cabeça formando um teto e a escuridão toma conta. Ao contrário do que se pode imaginar, a mata é tão barulhenta quanto uma metrópole, principalmente à noite. Os sons é que são diferentes. Buzinas, gritos e músicas são substituídos pelos sons dos animais que ali habitam. Recupero o fôlego e enfrento a escada, cujo fim ainda não vejo.

A CABANA

A estrutura da estação biológica é fantástica, quando penso que estamos no meio da floresta amazônica, no lugar mais ermo em que já estive em toda a minha vida. Mesmo assim, estamos muito distantes do conforto da cidade e de qualquer sinal de luxo. Um gerador é a fonte de energia elétrica, que é desligada automaticamente todos os dias pontualmente às 9 da noite. Os banhos são gelados e a comida limitada. Há bangalôs para os turistas, porém todos estão vazios quando chego. Há aproximadamente 15 pessoas hospedadas ali, nos outros quartos, todos envolvidos com algum trabalho de pesquisa científica, ninguém a turismo ou passeio. São americanos em sua maioria. Biólogos, pesquisadores ou trabalhadores voluntários. Ao chegar, sou apresentado a cada um deles rapidamente, sem conseguir disfarçar o cansaço.

O próximo passo é caminhar até a cabana onde ficaremos hospedados pelos próximos dias. O lugar fica afastado dos quartos onde os outros estão e da estrutura central da estação e, devido à combinação entre o desconhecimento da floresta e a exaustão que sinto, o caminho até lá se torna bastante assustador. Nos pés, galochas, para me proteger das cobras, aranhas e outros bichos peçonhentos. Aprendi que essa é a regra número um da floresta – galochas nos pés durante todo o tempo. Na cabeça, uma lanterna para iluminar o caminho. O lugar é simples, apenas um cômodo com duas camas. Deixo minha mochila e caminho até o banheiro para lavar o cansaço. O banheiro é separado, a cerca de 50 metros da cabana e é preciso enfrentar a noite para chegar até lá. Na escuridão, tomo um banho gelado ao som da floresta, que me recebe barulhenta e intimidadora. Talvez já para mostrar o quão insignificante eu era ali.


Mais tarde, um pequeno alvoroço começa a se formar próximo a cabana. Alguns pesquisadores se juntam e todos olham para o topo de uma árvore. Demoro para entender o que se passa. A escuridão, a infinidade de sons não identificados e o excesso de mosquitos fazem com que eu deseje uma cama mais do que qualquer outra coisa naquele momento. Pouco depois outras pessoas chegam correndo com lanternas e câmeras e entendo o que provocou a comoção. No topo da árvore enxergo um bicho-preguiça pendurado, alheio a confusão abaixo. Todos estão encantados e emocionados com a visão e eu, aos poucos, começo a entender a real dimensão daquilo. Não estamos em um zoológico ou em um safari. Avistar uma preguiça é algo raríssimo na floresta e todos me alertam disso. Um dos trabalhadores da estação me diz: “você tem sorte, Felipe, na sua primeira noite aqui!”. Eu concordo, acenando com a cabeça. Sim, só de estar ali, já me considerava sortudo.

DESBRAVANDO A FLORESTA


Às 6h o relógio desperta e essa seria a rotina pelos próximos dias. Depois de levantar e calçar as galochas, vamos ao refeitório, onde todos estão tomando café, com exceção daqueles que já estão trabalhando na mata. Bom dia se mistura com buenos dias que se mistura com good morning, a fome e o sono àquela hora da manhã sendo o único idioma totalmente comum a todos. As três refeições diárias são preparadas com carinho por dois cozinheiros peruanos. Não temos pão nem queijo e qualquer fruta é um pouco como luxo. Também não é incomum termos arroz de café da manhã e, para mim, brasileiro, isso é esquisitíssimo. Agradeço aos dois peruanos gastando todo o meu espanhol (gracias!) e me junto aos outros, à mesa.

Minha missão ali é acompanhar minha esposa como uma espécie de assistente, em seu trabalho de pesquisa. Durante todos os dias, depois do café, é a nossa hora de sair para desbravar a mata à procura dos primatas para observações e registros. Na região da estação biológica, a floresta é toda dividida por trilhas e isso facilita muito o trabalho de iniciantes como eu, apesar de não diminuir os riscos. Durante as caminhadas, sinto um frio na barriga constante, já que a qualquer momento poderíamos topar com cobra, onça ou um macaco menos amigável. E isso aconteceu algumas vezes. Por sorte, nenhuma situação avançou mais que um susto. Ao todo, vi de perto sete espécies diferentes de macacos, duas onças de pequeno porte, um bicho-preguiça, um queixada, uma anta, um sapo gigantesco, um jacaré, uma irara e muitas, muitas aves. As boas-vindas dadas pela preguiça na minha primeira noite, mesmo sem ela saber, foi fundamental para eu entender a real profundidade de dividir espaço com os animais nativos daquela floresta. Por isso, a cada encontro, uma emoção.


Ver todos esses animais de perto foi uma experiência completamente diferente pra mim, pois ali, no meio da floresta amazônica, o estranho era eu. Aquele era o habitat natural dos bichos que cruzaram meu caminho, e não o meu. É impossível comparar com um passeio de domingo no zoológico, por exemplo. É lindo e assustador ao mesmo tempo, pois aquela primeira impressão de que a floresta era imponente, se confirmou ao longo da minha jornada. Era preciso respeito. A Amazônia me lembrava disso todas as noites, quando eu pegava no sono ouvindo os passos de animais não identificados rodando minha cabana. Teve uma noite em que acordamos para ir ao banheiro e avistamos uma anta, imensa, próxima a nossa cabana. Trocamos olhares e decidimos fazer xixi ali mesmo, no mato, para não nos aproximarmos demais. Teve a vez que fomos recebidos na nossa cabana pelos gritos ensurdecedores de um grupo de bugios, lindo e, claro, intimidador. Sem falar nas várias trocas de olhares com os macacos-aranha em que eu me recusava e fazer qualquer movimento aguardando ele desviar o olhar, como um sinal de aprovação.

LAZER E DESPEDIDA

Durante meus dias na Amazônia, nas horas de folga os recursos para diversão eram simplórios perto do que temos à disposição em casa. Para se ter uma ideia, o auge foi uma partida de vôlei com uma bola um pouco murcha em um campo improvisado. A divisão desigual dos times, jogando três contra dois, mostrava o quanto o resultado ali não tinha importância. Rimos muito e descontraímos aquela tarde quente. Lembro com carinho desse momento.

Jogamos muito “Banana”, aquele jogo de peças em que você tem que ir montando as palavras como num caça-palavras e quem terminar com as peças primeiro, ganha. A conversa fiada recebendo o verdadeiro foco. Em uma das tarde livres, eu e minha esposa fomos até o Cocha Lobo, um lago próximo da estação e ficamos rodando de canoa, prestando atenção na vida a nossa volta. Vimos morcegos e aves incríveis! Por vezes também paramos para ver o pôr do sol lá de cima, reconhecendo a beleza.


Então, se você me perguntasse, sem dúvida diria que essa experiência mudou minha vida e acho que mudaria a sua também. É sobre rever a percepção de tempo, em um lugar onde o relógio parece passar mais devagar. É sobre experimentar viver, mesmo que por um curto período, com o mínimo necessário. Sem internet, Netflix, bares, festas, bebidas, carros. É sobre se perceber pequeno diante de um mundo tão vasto e desconhecido como o da floresta. É sobre reconhecer essa nossa pequenez humana em comparação a dos animais no ambiente que deveria ser deles e de ninguém mais. É sobre se divertir com pouco e se despir de qualquer vaidade. É sobre ser mais igual. É sobre crescer.

E é também sobre voltar para a sua rotina na “civilização” e notar que talvez você não precise de tantas roupas assim, de um carro mais novo, de um celular de última geração. É sobre voltar com o ego menor e a visão de mundo amplificada. É sobre ler uma notícia envolvendo a floresta ou os animais e se importar. Verdadeiramente se importar e tentar fazer algo a respeito. É sobre diminuir as distâncias entre os mundos. É sobre plantar uma semente e deixar a árvore crescer. Mesmo que simbolicamente. Mesmo que dentro de você.

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