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O Dia Em Que Topei Com João Gilberto Em Calgary


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Dia desses resolvi dar uma volta por alguns lugares que ainda não conhecia em Calgary. Escolhi primeiro caminhar por Inglewood, o bairro mais antigo da cidade. Lá fica a atual Ninth Avenue, que foi por algum tempo a principal avenida daqui. Hoje é uma região cheia de lojas e galerias de arte, artesanato e antiguidades. Além de já ter sido definida como o centro da música local por conta de seus bares e restaurantes e os festivais promovidos ao longo do ano. Em resumo, lugar interessantíssimo para um passeio despretensioso. Então, me fui.


Já calcorreando pelas charmosas calçadas do tal bairro, um som familiar me alcançou. Uma música que eu sabia que conhecia, mas levei algum tempo para reconhecer. Mais ou menos como quando você topa com um conhecido na rua e por um segundo não se lembra de onde o conhece. Foi o prazo de entrar a voz de João Gilberto, cobrindo o solo de saxofone:

- Um cantinho, um violão...

Era Corcovado, clássico de Tom Jobim interpretado pelo pai da Bossa-Nova, no clássico disco Getz/Gilberto de 1964.

A gravação desse disco rendeu um dos episódios mais curiosos da música brasileira. O disco foi gravado em Nova York e, como o título deixa claro, era uma parceria entre o nosso João Gilberto e o saxofonista americano Stan Getz. No livro “Chega de Saudade”, Ruy Castro conta que durante a produção do álbum, João e Stan encontravam dificuldade na hora de selecionar os melhores takes. Nesse ambiente, se deu um diálogo histórico, com Tom Jobim fazendo o papel de intérprete. João pediu: “Tom, diga a esse gringo que ele é um burro”. Tom, para Getz: “Stan, o João está dizendo que o sonho dele sempre foi gravar com você”.

Mas voltando ao meu passeio por Inglewood.

Sempre me emociono quando sou surpreendido por uma música brasileira tocando em um lugar público aqui no Canadá. Acho uma coincidência tremenda estar no lugar e na hora exatos em que sei lá quem decide executar um João Gilberto, por exemplo, como foi o caso naquela tarde. Soa como algo dedicado exclusivamente a mim, não sei. Como se as calçadas de Inglewood quisessem me dar às boas-vindas com uma música que realmente me tocasse. Como alguém decide homenagear um amigo estrangeiro cozinhando um prato típico de seu país de origem.

Quase sempre quando ouço música brasileira aqui o gênero selecionado é bossa-nova, uma das coisas que gringo geralmente gosta quando o assunto é Brasil. Acho bonito porque é o gênero do Brasil romântico. Do Brasil que deu certo. Do Brasil que observa a menina que passa num doce balanço a caminho do mar. Que observa, sem pressa e degustando um chopp gelado, o barquinho indo enquanto a tarde cai. O Brasil é isso. Mas infelizmente não é só isso. Não é a toa que a Bossa-Nova é acusada de ser elitista e alienada, por ignorar as mazelas sociais e o chamado por alguns de verdadeiro Brasil.

Bem. Perdoe-me as várias voltas, eupático leitor. Voltando mais uma vez a Inglewood.


Ouvindo a voz de João Gilberto, estaquei na calçada e me demorei mais alguns instantes observando o ir e vir das ruas parcialmente cobertas pela neve.

- Da janela vê-se o Corcovado, o Redentor, que lindo...

E era como se lá distante eu conseguisse realmente enxergar o Cristo, braços abertos lá no alto. E é mesmo lindo, qualquer um há de concordar.

Então me lembrei de Caetano. Na música “Pra Ninguém” ele vai citando alguns cantores e suas obras. A letra menciona: Nana cantando “Nesse Mesmo Lugar”, Tim Maia cantando “Arrastão”, Bethânia cantando “A Primeira Manhã”, entre vários outros. No fim, decreta:

- Melhor do que isso só mesmo o silêncio. E melhor do que o silêncio só João.

Caetano tem razão. João Gilberto com seu violão sutil e sua voz minimalista preenche qualquer espaço sem agredi-lo. É melhor que silêncio, portanto.

Então me lembrei de quando estive no Brasil mês passado e li em uma revista que a situação de João Gilberto é absolutamente dramática. Está endividado, sob intervenção judicial e cada vez mais isolado do mundo. É como se ele pensasse que já fez muito pelo nosso mundo através de sua arte (e fez mesmo) e desistisse de viver em sociedade, decidisse fazer só o que quer a hora que quer usando o crédito que tem. Mas esse é assunto para outra crônica.

Em Inglewood, a música findou e eu segui a Lalá que já chamava minha atenção para algo qualquer em uma vitrine próxima. Seguimos nosso passeio. Eu com uma pontada de saudade do Brasil. De um Brasil que talvez só exista mesmo nas canções.



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